ATUALIZADO: 11 de dezembro de 2019
Ele venceu a competição, mas o seu melhor e maior músculo sempre esteve escondido no peito.
No auge de sua carreira, Ezequiel Corte Real foi um dos vencedores da “Casa dos Campeões”, o reality show fitness promovido pela Max Titanium, uma renomada marca de suplementos para atletas profissionais e amadores. O objetivo da disputa foi selecionar dois vencedores na categoria Bodybuilder para representar a marca em competições no Brasil e no exterior. Mas estar mostrando performances e participando da disputa com outros competidores de várias partes do Brasil, acabou revelando algo muito além do que um atleta dedicado: um ser humano ímpar, que tem como meta de vida ajudar o próximo.
Reconhecido em Santa Maria como um dos melhores profissionais de fisiculturismo, Ezequiel acabou saindo do Reality em sua primeira participação, mas retornou com o apoio do público. Dessa segunda vez, foi descoberto pelo líder e apresentador da Casa dos Campeões, Júlio Balestrini, que ao pesquisar sobre a vida de Ezequiel Real, conheceu a sua história, descobrindo que ele havia sido um dos voluntários que participou do salvamento das vítimas da Boate Kiss. A tragédia chocou o Brasil e o mundo na madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando 242 jovens morreram carbonizados durante um incêndio provocado, de acordo com a perícia, por conta de imprudência e pelas más condições do local. Ezequiel conseguiu tirar cerca de 20 jovens da boate em chamas.
“Mesmo já tendo passado muitos anos, eu tenho muito claro em minha cabeça, por que eu enxerguei ali o ser humano da forma mais animal que existe, buscando por sobrevivência”, lembrou o atleta. “Foi quando eu mantive a calma e tentei me afastar daquelas pessoas em pânico, que se direcionavam para o mesmo lugar. Acabei tomando a direção de outra porta, onde eu vi um caminho livre, mas eu acabei passando por cima de algumas pessoas que estavam também tentando sair. Aquilo me deixou com um peso muito grande na consciência, porque eu estava agindo como os outros, que não estavam pensando no próximo. Foi por isso que eu voltei e tentei ajudar o máximo de pessoas possível”.
O preparador físico contou em uma de suas entrevistas, que entrou na festa que estava acontecendo na Kiss por acaso, uma hora antes do incêndio começar, nada estava programado. De madrugada o fogo teve início e milagrosamente Ezequiel saiu ileso da tragédia. Nem os médicos souberam explicar o fato dos seus pulmões não terem sido prejudicados pela fumaça tóxica que havia no local, mesmo ele tendo passado tanto tempo exposto ao ambiente. Deus o guardou, porque queria fazer dele um resgatador de almas.
“Naquela hora terrível, onde muitos jovens estavam ali morrendo, chega alguém e levanta, salva… então, ele é considerado um anjo, uma pessoa justa. O nome “Ezequiel” quer dizer ‘Deus me fortalece’ ou ‘Minha força é Deus’”, disse Joel Engel, pastor de Ezequiel.
De fato, a capacidade para levantar algumas pessoas, que pesavam até mais do que ele, e outras, mais leves, porém por repetidas vezes, atrás de socorro, fez com que o atleta atribuísse a sua força a Deus: “Fica a lição de que a gente não está aqui por acaso. Não era o ‘Ezequiel’ em si que estava lá sozinho. Tinha mais gente dando força. Tinha algo maior dando força”, disse.
Engel e Corte se conheceram depois da tragédia, em um dos períodos mais difíceis da vida de Ezequiel, que tentava se recuperar das cenas traumáticas que consumiam a sua mente dia após dia, depois do acidente trágico: as expressões faciais dos jovens morrendo, o desespero dos pais e amigos do lado de fora da boate… Em meio ao apoio da família e dos amigos, uma ajuda foi fundamental, a do Pastor Joel Engel.
“Para aquelas pessoas, ele foi enviado como um anjo de Deus, até por que o lugar estava tomado de fumaça, escuro e a boate era cheia de labirintos, então alguém que entrasse ali poderia nunca mais sair. Ele foi dirigido por Deus. A vida continua e a missão continua e a nossa missão está ligada aos nossos sonhos então, uma pessoa que deixa de sonhar, ela já morreu e está apenas sobrevivendo”, concluiu Engel. É em busca desses sonhos que o mais novo integrante da Max Titanium vai continuar lutando.
É certo que a dor e o luto pelos 242 jovens mortos em Santa Maria duram até hoje. Mas o consolo do Espírito Santo vem através daqueles que conseguiram ser salvos e dos que se levantaram como heróis da fé, que em meio a um mundo tão perverso e mal, ainda olham para o próximo com compaixão, respeito e amor.
Joel Engel