Uma história de Natal

Minha primeira noite de Natal em Faxinal do Soturno não foi marcada por panetones ou perus.

FONTE: Ministério Engel

ATUALIZADO: 24 de dezembro de 2018

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Minha primeira noite de Natal em Faxinal do Soturno não foi marcada por panetones ou perus. Não teve árvore luminosa, nem presentes. Mas posso considerar que foi um dos melhores natais da minha vida, pois pude sentir a presença de Deus muito forte na cozinha da casa de dona Hermínia. Estávamos dividindo um pedaço de pão velho, com meio copo de chá, bem ralinho, e comemorando a cura de seu esposo, a quem o Senhor acabara de livrar da morte. Foi assim que as nossas vidas se cruzaram. Mas vamos começar do início…

Cachoeira do Sul, 25 de dezembro. Fui à favela e preguei aquela que seria a minha última mensagem. Eu estava sendo enviado pela minha Igreja como missionário para começar meu ministério em Faxinal do Soturno. Ao voltar para casa, a porta não abria e eu fiquei do lado de fora. O Pastor Antônio Viana passou e me deu uma carona até a rodoviária. Ele me perguntou se eu tinha o dinheiro para o ônibus, mas eu não tinha. Ele me deu a passagem e depois de sacudir por três horas e meia naquele ônibus, só com a roupa do corpo, cheguei ao meu destino. Eu estava com uma camisa marrom, de manga curta, que chegou em Faxinal mais marrom ainda. A estrada empoeirada e sem asfalto me fez vomitar algumas vezes. Sem dinheiro para absolutamente nada, eu só carregava o sonho de ver uma cidade salva.

A primeira ideia que tive foi ir até a rádio. O clima estava seco, o dia muito quente, pois fazia muito tempo que não chovia. A cidade estava vazia, parecia uma cena de filme de terror. Quando encontrei a primeira alma vivente, perguntei onde ficava a rádio. Fui ao local indicado e logo encontrei o operador de áudio. Pedi permissão para por um anúncio, muito importante, principalmente para as pessoas que precisassem de um milagre. Não sou muito bom em anúncios comerciais, mas pensei em algo mais ou menos assim: “Se você precisa de um milagre em qualquer área da sua vida, compareça à praça central amanhã a tarde! Jesus estará lá e você receberá o seu milagre!”. O diretor da rádio me chamou de louco e disse que não daria um anúncio como aquele em sua rádio.

Ninguém entende isso, mas acredite: é bom ser humilhado por alguém todos os dias. Se você lê a Palavra de Deus, sabe exatamente o que eu estou dizendo. Constantemente eu passava por algum tipo de humilhação, até na Igreja, na frente do povo, eu era muito envergonhado. Mas isso era apenas uma preparação para as batalhas que estavam por vir. Eu já não me importava mais em ser xingado, ofendido ou rejeitado. Eu fui desprezado inclusive pelas pessoas a quem eu mais me dediquei e mais doei a minha vida.

Quando aquele homem da rádio me colocou para fora eu sentei no passeio e fiquei ali, descansando um pouco. Ele foi lá dentro, colocou uma música e voltou para a porta, para acender seu cigarro. Olhou pra mim e com tom de deboche, falou: “É cada louco que aparece por aqui. Se você faz milagre, faz chover! Faz 120 dias que não cai uma gota. Já apelamos para todos os santos.” E eu disse para ele algo que me dá forças até hoje: “Chover é uma boa ideia!” E fiz uma oração:

“Pai eu já vim chorando de Cachoeira até aqui, agora é a tua vez”. Jesus é o nosso intercessor, pois ele sabe o que é chorar, ser rejeitado. Muitas vezes, a maior arma de um intercessor são as suas lágrimas e a sua maior força, vem da rejeição. Eu não tinha mais para onde descer. Eu já tinha entregue a padaria e todos os meus bens, pesava próximo dos 50 quilos e já tinha jejuado 40 dias. Agora só tinha um com quem eu podia contar. Aí eu disse ao Senhor: “É tua vez de chorar”. Na mesma hora começou a chuva. A chuva para mim é muito mais do que água ou um fenômeno da natureza, ela me lembra, o quanto o Pai me ama. Nessa época eu orava de 18 a 20 horas por dia. Nunca estudei muito, mas passava muito tempo em oração e tinha intimidade com Deus. Aquele homem da rádio não acreditou! Deu um grito e saiu correndo. Depois de algum tempo a chuva parou e eu fui para a praça, no fim da tarde do dia 25 de dezembro. Os bancos eram verdes, feitos de tábua e eu já me preparava para ter que passar a noite ali. Foi naquele momento que apareceram a Dona Hermínia e seu esposo. Notei as lágrimas no rosto dela e perguntei o que tinha acontecido. Ela me mostrou o braço do marido, meio azulado e disse que era tétano. “O médico nos negou atendimento pois não podemos pagar”, disse ela desapontada. “Eu conheço um médico que atende vocês, Jesus”, respondi. Curiosos eles me perguntaram onde ficava o consultório desse tal doutor Jesus. “Aqui mesmo! Ele está aqui comigo”, insisti.

A noite de natal já estava chegando e eu não tinha onde dormir, nem o que comer. Mas minha paixão por Jesus era tanta, como continua sendo, que eu estava pronto para passar a noite na praça e a ficar sem comer. Sofreria qualquer coisa por Ele. Mas aquele casal foi enviado por Deus.

Falei para eles o que repito até hoje: Jesus está aqui! Pedi àquele senhor para estender a sua mão e ele foi curado instantaneamente. A dona Hermínia ficou espantada e me convidou para comer e dormir na casa deles. A ceia de natal foi regada por uma fatia de pão velho e chá, tão ralinho que parecia água. Mas senti como se aquele pão pudesse me dar forças para caminhar por 40 dias e 40 noites.

Ela ainda insistiu para que eu aceitasse uma pequena oferta, para eu voltar para Cachoeira. Faz muito tempo que eu não vejo pessoas assim, como aquela mulher, que durante seis meses não deixou me faltar ofertas nos quatro níveis, como a oferta de Maria de Betânia.

Porém, depois de seis meses, dona Hermínia não teve mais condições de me abençoar. Eu precisava voltar para Cachoeira do Sul, mas não tinha como comprar a passagem de ônibus. Resolvi ir a pé. Naquele dia, a temperatura deveria ter passado dos 40 graus, pois o calor era insuportável. Enquanto caminhava, comecei a travar algumas batalhas em minha mente. Estava quase desacreditando da existência de Deus. Creio que muitas pessoas passam por isso e podem até tirar suas vidas numa hora dessas. Você começa a se sentir desamparado, abandonado e uma depressão muito grande invade a sua alma, provocando um bombardeio na mente. De repente me deparei com um poste, onde havia um folheto. Cheguei perto para ter certeza. Sim, era o folheto que eu havia posto há seis meses, quando cheguei na cidade e ele estava lá, intacto, mesmo com a poeira da pista, vento, entre outros. Na hora, o Espírito Santo começou a ministrar ao meu coração: “A história de Jesus é tão bonita que vale a pena dar a vida por ela”. Comecei a pensar em Jesus e na história dele, o quanto ele foi humilhado, rejeitado, oprimido… de repente, quando me dei conta, eu já estava em frente à minha casa, em Cachoeira do Sul.

Naquela semana eu estava decidido a nunca mais voltar à Faxinal. Naquela época, nem os anjos queriam entrar naquela cidade. Parece que a gente entrava sozinho e Deus ficava do lado de fora, de tão maligna e de tanto peso espiritual que havia ali.

Eu estava há seis meses sem um companheiro de oração, sem um abraço amigo, que pudesse curar as feridas ali provocadas. Então, disse para o Senhor, que se ele existisse, eu queria aquele abraço. “Se você quer um abraço, abrace seu pastor”- Ele respondeu. Eu estava um pouco chateado com ele, pois quando ele me enviou para Faxinal, me deu apenas a passagem da ida, e eu pensei que ele queria se ver livre de mim. Mas resolvi obedecer. Quando o abracei, sentir sair todo o peso. Naquela hora eu tive a visão da bola de fogo, caindo sobre Faxinal. Ele teve a visão de um grupo grande de pessoas, como se fossem árvores. Dois dias depois eu estava de volta à Faxinal.

Amigos intercessores

Ao entrar na cidade, avistei uma multidão em frente à casa de dona Hermínia. “Só pode ser um velório, ou acidente”, sugeriu o motorista. Desci do ônibus, e fui recepcionado de uma maneira diferente. As pessoas apertavam a minha mão e eu fui cumprimentando uma por uma, até que contei 50 pessoas. Parei e perguntei para dona Hermínia o que era aquela multidão. “Esse povo todo veio por sua causa”, disse ela, explicando que milagrosamente, todos tiveram o mesmo sonho, onde Jesus aparecia e os mandava vir até aqui: “Vai naquela casa e lá estará meu servo. Ele vai orar por você e você será curado”. Eu não sabia quem eu era, eu não disse a ninguém quem eu era, nunca mostrei meu documento, ninguém sabia que eu era pastor, mas todos davam testemunho de que Jesus havia me enviado ali. Desse dia em diante eu não tive mais como esconder que eu sou amigo dele. Reunimos todas aquelas pessoas e Jesus começou a curar todas elas. Jesus caminhava de branco no meio daquele povo realizando maravilhas. Ele só precisava de nossas orações para descer e realizar seus milagres. Demônios começaram a sair, as pessoas caiam e levantavam diferentes, transformadas, restauradas. Foi fantástica a nossa primeira reunião.

Assim teve início a Igreja em Faxinal do Soturno, na casa de dona Hermínia. Deus ia mostrando aquele lugar às pessoas, e a cada culto, a quantidade era multiplicada.

Nesse tempo ganhei um Arão e um Hur, ou seja, dois intercessores que me sustentavam nas batalhas em Faxinal: A dona Dorília Vicença, uma viúva que morava numa favela em Cachoeira do Sul; e Julião, um rapaz que se tornou meu melhor amigo, o cara que mais orou comigo no monte. Nos meus piores momentos de luta ele orou por mim. Mas em meio à guerra, dona Dorília morreu e quando eu estava para vencer aquela guerra, o Julião morreu. Eles gastaram as suas vidas intercedendo por mim. Quando eles morreram eu fiquei muito triste, achando que eu nunca mais teria intercessores como eles.

E como eu precisava de amigos de oração! Todo culto que eu fazia em Faxinal, a polícia interrompia, me dando ordem de prisão. Eu tinha alguns irmãos que me defendiam, mas até eles ficaram impedidos de me protegerem. Um dia, um deles me disse que um grupo de quatro pessoas estava planejando me matar no final do culto. A única coisa que eles poderiam fazer por mim era me aconselhar ir embora. Peguei a minha maleta e já estava atendendo àquele alerta, mas Deus falou comigo e me impediu: “Não vai nem orar?”

Ali mesmo, no quartinho de oração da dona Hermínia, onde eu tinha guarida, onde ela me recebeu naquela noite de natal, dobrei meus joelhos ao lado da cama, e orei pedindo a bênção de Deus para eu ir embora. Comecei a falar em outras línguas, até que o Senhor me deu a interpretação das línguas que estavam saindo do meu espírito. Elas diziam: “Se fugires perderás, se ficarem vencerás”.

Eu comecei a suar, pois era um momento muito difícil. Minha visão se abriu e eu descobri que os intercessores nunca morrem. Eu vi Julião e Dorilia e eles diziam que deram a vida orando para que eu vencesse, eu não poderia ir embora. Eu saí daquele quarto cheio de poder e fui pregar, mesmo sabendo que havia uma emboscada armada contra mim. Veio sobre mim uma força e uma coragem, uma ousadia, que eu acho que tinha alguém orando por mim. Uma mulher bem corcunda foi curada, em nome de Jesus, e aí foi um após o outro. Um por um foi sendo curado. Uma mulher com câncer, vomitou o tumor. O Espírito Santo me tomou e a minha voz saia como a de um rugido de leão. Falei: “Os quatro que vieram para me matar, se vocês não entregarem suas vidas para Jesus agora, vocês vão morrer”. Diante do desafio, os quatro levantaram as mãos, cada um em um canto do auditório, aceitando Jesus.

Hoje meu sonho está realizado. Faxinal é uma cidade onde a glória de Deus desce facilmente. Jesus ama Faxinal do Soturno e escolheu essa cidade para abençoar.

A cada ano Deus sempre me presenteia. O melhor presente sempre foram amigos intercessores, aqueles que oram por nós.

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